quarta-feira, 29 de julho de 2009

Silêncio


Uma coisa estranha aconteceu
Não era meu, nem nunca seria
Até que floreceu.

Os acontecimentos
foram se desencadeando
mudando coisas
novos rumos tomando

Digno de honra é o Senhor
E seu nome seja sempre exaltado
Quem entenderá seu agir,
Ou conhecerá sua sabedoria?

O que antes era alvo do amor
Disso nada restou?!
O que era antes alvo da crítica
Virou canção, virou poesia.

Quem fará entender sua Sabedoria?
Quem explicará seu plano?
Quem? Me diga Quem?

O Temor quando envolve,
Faz esperar,
A Voz quando brada
Faz agir.

Os sinais não são nossos. veja!
Os minutos se passam. Vemos?
As horas esperam. O q?

Gestos reprimidos,
Olhares interrogativos
Mãos ansiosas.
Corações acelerados.
Namorados.


Gisele Padrão

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Segundo a Bíblia

Diz a Bíblia que o nosso Criador
Fez o mundo em seis dias, simplesmente,
Deus criou Adão, puro, inocente,
Para exaltar as glórias do Senhor.

Vendo Adão tanta luz, tanto esplendor,
Uma idéia fatal lhe veio à mente: —
Pedir um companheiro ao Onipotente,
Para gozar de tudo igual favor!

E Eva lá se vem, e Adão vencido,
Foi levado a um pomar, por entre trevas,
Para comer de um fruto proibido!

E por castigo eterno ao crime bruto,
O pomar inda existe, e novas Evas,
Com a mesma história do maldito fruto!...

Adail Coelho Maia

Interrogação

Ris, por que ris de mim?julgas por certo
Que eu seja indigno de qualquer carinho?
— Ave perdida procurando ninho
Na solidão profunda do deserto?...
Vivo longe de ti, e a passo incerto
Sigo em silêncio o teu feliz caminho,
Porque sem ti me sentirei sozinho,
Trazendo o peito em mágoas encoberto.
Não sou capaz de profanar-te o nome,
Sofrendo embora esse martírio ardente,
Na fogueira do amor que me consome!...
Não rias, pois, da dor que me rodeia!
Olha que Deus proíbe e não consente,
Que a ente ria da desgraça alheia!...
Adail Coelho Maia

Ônibus

Vem atulhado de gente,
vai atulhado de gente,
gente que vai trabalhar,
gente que parte cansada,
gente que volta cansada
de um incurável cansaço.
Ônibus que é para todos
os que não podem parar
Ônibus de velhos, moços,
mulheres, meninos, crianças,
estudantes e pedreiros,
pintores e professores,
mecânicos e bombeiros
enfumaçados e tristes
a dormir durante a viagem.
Dormem, mas dormem que sono?
Dormem sonhando que sonhos?
Sonhos de amor ou de guerra?
No espaço ou no chão de terra?
Ai! daqueles que não dormem
e não têm sonho nenhum
no estreito aperto dos bancos
ou de pé aos solavancos
dentro do ônibus mortal
de uma vida não vivida
em que a maior alegria
tem um olhar de tristeza
ri meio sorriso triste
e não desce onde deseja
mas onde o trânsito quer.
Triste ônibus desta vida.

Abgar Renault

Sê tu a palavra

1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir -
eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?

Eugénio de Andrade

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão ,
Quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e não guardo o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Cecília Meireles

Gota de Água

Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.

António Gedeão

Mas, conquanto não pode haver desgosto


Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.
Luís de Camões

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Soneto 96

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça.
Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
È astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma, para a eternidade.

Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

Shakespare

Soneto 23

Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.

Shakespare

Soneto 17


Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
Shakespare

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Poesia


Em meio a rotina do dia-a-dia,
encontro tempo pra escrever minha poesia.
Passo todo meu sentimento,
seja ele amor, duvidas ou dor,
para esse pequeno momento,
em q escrevo a minha poesia.
A vida assim fica mais saborosa,
aproveitando cada momento do dia.
experimente ser diferente
daquilo que você está acostumado a ver;
descaso, abandono e egocentrismo,
o nosso mundo está cheio disso:
pessoas que não sabem o valor da vida,
se deixam levar pela rotina,
e quando percebem que riqueza é viver,
já é tarde, já está quase na hora de morrer.
Então viva cada dia com intensidade,
com amor, com carinho, com verdade.
cultivando amizades verdadeira,
que vão durar pra vida inteira;
ao invés de perder tempo
com um monte de bobagens
que não têm valor,
como a falsidade, a intriga e a fama.
Busque aquele que te ama,
que em todo momento
está pronto pra te ouvir,
e te dar alento.
e só assim poderá saber
o verdadeiro sentido da vida.

Gisele Padrão

O poeta

O coração do poeta sempre está dividido
entre sim e não,
entre compania e solidão,
entre falar e calar,
entre coração e razão,
entre agir e esperar,
entre ser e estar,
entre amigo e namorado,
entre beijar e ser beijado,
entre conquistar e ser conquistado,
entre pensamento, caneta, papel
e amado.
Gisele Padrão

Lua

Lua que brilha,
tanto na noite de alegria,
quanto na noite escura e fria.
Ilumina a riqueza,
e nos mostra a pobreza,
nos faz sorrir, e nos faz chorar;
Sentimentos guardados,
são expostos ao te olhar.
Doce e cruel luar.
Quem dera fosses como o Sol,
que nos faz parar para pensar,
em tudo que podemos mudar,
mas preferimos fechar os olhos,
e continuar
na estagnação,
vivendo na escuridão.
Sol que ilumina o nosso coração,
para nos mostrar
a podridão,a loucura,
a indiferença,que
em nos há
Quiça assim,
tua linda e inalcançável luz
servirá pra alguma coisa,
além do mundo iluminar,
na beleza,
a frieza do luar.

O universo é o teu lar
as estrela, meninas,
brincam só pra tua atenção
chamar,
mas você sempre linda,
intocável, na tua
esplendorosa solidão,
não percebe que a alegria
não está na exatidão,
está naquele que à vida da razão.

Olhando para o céu vejo a imensidão,
e a comparo com o vazio que há no coração,
lembro do autor da criação
e sei que só ele pode preencher esse vazio
e me tirar da escuridão.

Quem diria,
antes quando te adorava,
na ignorância o fazia.
agora sei, que por mais que sejas bela,
és criação.
Há uma luz
que ilumina o meu coração,
que me faz sair dessa ilusão,
de te ter como mãe.
Lua tú és linda,
porém não tens vida.
és tristeza, és amor,és paixão,
és dor,és inspiração
para a imaginação,
daquele que já te amou.
Nua e pura lua;
Inspira beijos apaixonados,
inspira a cruel separação,
inspira os namorados,
inspira a destruição.
Lua, até quando vai durar
essa tua solidão?
Quando as estrela começarem a cair,
e todos que antes te adoravam,
ver a morte os engolir.
Onde estará tua gloria, tua fascinação,
tua beleza, a pobreza,
a ambição?
Não haverá mais luto,
não haverá mais ilusão,
haverá verdade,
haverá renovação.
Mas será que de repente
você dure eternamente;
Então continuará existindo
Oh lua, a tua amarga solidão..
Gisele Padrão

A Noiva

Olha que lá vem ela
vestida de santidade
exalando pureza,
seus sapatos adornam seu pés
formosos.
Uma dama quase perfeita,
com o amor a arder no coração
e a espada como um buquê
em suas mãos.
Seu rosto brilhando como o Sol,
Seus olhos profunda bondade
Sua boca só fala a verdade.

Ela vem adornada de alegria,
a Paz é a sua aliança.
Vem ruborizada de esperança
Em suas tranças, de reis
a vassalos se encontram
num cárcere desejado.

Saltitando ela vem,
coração palpitando
porque a hora está chegando
de ela se encontrar nas alturas
com o seu amado.
O véu que os separavam
foi rasgado.
O acesso a sua presença para ela
foi liberado.

Ele a cerca constantemente,
Com o seu carinho e com os seus cuidados.
Um anseia pelo outro nesse amor,
que pelos séculos dos séculos,está eternizado.
Mas haverá o Dia, e que dia,
em que nada poderá impedir
a igreja,
linda noiva de subir,
e com o seu amado
o Cordeiro
se encontrar.
Aleluia, e com ela estarei,
a adorar o meu Deus,
meu Rei.

Gisele Padrão

Inspiração para violino

Eu componho minhas canções para o meu Amado
Mas quem é o meu Amado?

O meu Amado é doce e compreensivo,
companheiro de todas as horas e amigo.
Sabe mais de mim que eu mesma,
e possui muita beleza.
Quando estou aflita sei que nele posso confiar
e que todos os meus problemas Ele solucionará.

O meu Amado me ama de tal maneira,
que eu nem consigo imaginar,
Um amor tão forte que para sempre durará!
Quando falo com Ele me sinto numa paz,
numa alegria tão grande que nem sei como expressar.

O meu Amado nunca me deixou, nem me deixará,
O meu Amado para sempre amarei,
e Ele para sempre me amará.
Mesmo quando me revoltei contra Ele,
Ele me amou, me protegeu, e me esperou.
O seu amor me salvou!

O meu Amado é um Rei muito nobre,
porém muito humilde e amigo.
Guerreiro forte destemido,
não perde uma batalha de todas é vencedor,

O meu Amado é fiel, perfeito e sábio.
Sem Ele não sou nada,
Sem Ele não tenho alegria,
Sem Ele sou fútil e vazia,
Sem Ele não tenho Paz,
Sem Ele sou facilmente iludida,
Fico buscando coisas que não me trazem vida.

O meu Amado venceu a morte por mim e por você.
Triste e vazio é quem não o confessa
como Senhor e Salvador de sua vida.
Eu o confessei, e pelo seu sangue fui remida.
Sangue que purifica,Sangue que santifica,
Sangue poderoso que de todas as batalhas me faz vencedora.
O castigo que nos traz a Paz estava sobre Ele.
Há amor maior que esse?
Amor que dura eternamente.
Amor que nos deixa contente,
Amor que preenche esse vazio que a gente sente.
Amor sem interesse no dinheiro,
Amor forte e que não é passageiro.
Não preciso mais de ilusão,
porque o meu Amado me trouxe
verdade e satisfação.

O meu Amado me tirou de um posso de perdição,
onde tudo era aparência e interesse.
Onde há tristeza, drogas, revolta e depressão.
Mas Ele me pediu, e eu lhe entreguei meu coração,
e Ele me trouxe a salvação, amor, verdade e Paz.
Ele é o caminho que leva ao Pai.

Quem é o meu Amado?

Gisele Padrão

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ode ao gato

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
Profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.

Pablo Neruda

Ode à poesia


Perto de cinqüenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.

E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto.

Pablo Neruda

Não te quero senão porque te quero

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.

Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te, como um cego.

Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

Pablo Neruda

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Desejo primeiro

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar esofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

Victor Hugo

É urgente o amor


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

Poesia

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Carlos Drummond de Andrade